top of page
Buscar

Manualidades e Arteterapia na Saúde Mental: quando o cuidado começa pelas mãos

  • Foto do escritor: Juliana de Melo
    Juliana de Melo
  • 26 de jun. de 2025
  • 5 min de leitura

Quando foi a última vez que você fez algo com as suas mãos sem ser uma obrigação e sem pressa? Talvez esteja aí um começo possível para um cuidado mais profundo.


Introdução


Em tempos de tanta correria, produtividade e desconexão, um gesto simples pode reacender a presença: usar as mãos com intenção.


Juliana de Melo
Juliana de Melo

Esse artigo surgiu a partir de uma entrevista que concedi à BandNews FM Salvador, a convite da jornalista Verena Veloso.


O tema da reportagem foi: os benefícios das manualidades para a saúde mental e física, e a minha fala buscou trazer o olhar da arteterapia para essa conversa.


Aqui, compartilho não só o trecho que foi ao ar, mas também o conteúdo completo que preparei com carinho e que não pode ser incluído pelo tempo disponível para a pauta: reflexões vividas, falas que escutei nos atendimentos e a importância de resgatar o fazer manual como um caminho de cuidado e transformação.


Mãos conectadas com o mundo, mas desconectadas de nós mesmas


Vivemos em um tempo em que podemos nos conectar com o mundo inteiro pelas mãos e, paradoxalmente, estamos cada vez mais desconectadas delas.


Quando perguntamos a alguém quando foi a última vez que fez algo com as mãos que não fosse uma tarefa cotidiana, muitas pessoas paralisam. Dirigir, digitar, pentear os cabelos, preparar comida... usamos as mãos para tudo, mas quase sempre no automático, usadas quase que exclusivamente para fins operatórios.


Esquecemos que as mãos também podem ser ponte: com o mundo interno, com a memória, com a criatividade e com o prazer do momento presente.


O que escuto das mulheres que acompanho


Durante os atendimentos, escutei falas que revelam esse reencontro:


“Nossa, eu não lembrava mais como era pintar com tinta.”


“Acredita que eu nunca tinha mexido com cerâmica?”


“Fazer esse trabalho com massinha de modelar me fez voltar em um tempo em que eu era feliz. E esse cheiro da massinha? Como é bom!”


“Essa semana eu peguei meu pincel e uma guache verde e comecei a pintar. Fiquei pintando por bastante tempo, só com essa cor, só pintei, sem pensar em nada. Não esperava que seria tão bom! Simplesmente esqueci das tarefas de casa.”



Muitas mulheres chegam com receio ou vergonha de “não saber fazer”.


Parece que ao viramos adultos perdemos também a permissão de nos permitirmos voltar a explorar alguns materiais, como se isso fosse algo somente para criança.


Quando na verdade a exploração de materiais expressivos nos permitem elaborar coisas fundamentais para estimular a nossa criatividade, a visão de mundo e sobre nós mesmos.


Mas basta um pouco de escuta, acolhimento e liberdade para que as mãos se lembrem das emoções e sensações que esse contato proporciona.


O primeiro contato com o mundo e com nós mesmas


Nosso primeiro contato com o mundo é pelas mãos. Antes mesmo das palavras, tocamos, apertamos, sentimos. A criança conhece o mundo pelas texturas, formas, temperaturas.


As mãos são, portanto, nosso primeiro instrumento de conexão com o mundo externo e com a construção simbólica do mundo interno.



Na vida adulta, podemos também voltar a nos (re)conhecer assim. O contato com os materiais expressivos desperta memórias, reorganiza pensamentos, dá forma ao que muitas vezes ainda não tinha nome.


Esse fazer com as mãos pode se tornar um portal para dentro. E isso, por si só, já é terapêutico.


Por isso, refletir sobre esse resgate do uso das mãos como via de expressão e de como isso pode ser uma forma profunda de cuidado, é fundamental.


A arte como meio, não como fim


É importante destacar que a utilização dos materiais expressivos na arteterapia não tem como finalidade a produção artística ou estética. Não se busca finalizar um trabalho bonito ou harmônico para si ou para os outros.


Na verdade, esses trabalhos abrem caminhos para o que precisa ser olhado. A arte permite que a pessoa se veja, se escute, se identifique e, se desejar, se transforme.


Nesse contexto, mesmo as pessoas que nunca tiveram contato com atividades artísticas podem se beneficiar com essas propostas terapêutica, porque não se trata de uma habilidade, é sobre se permitir experimentar.


Criatividade que vai além da estética


Falar em criatividade aqui não é sobre pintar algo inovador. É sobre desenvolver novas formas de olhar para si mesma e para as experiências da vida.


Quando utilizamos as mãos para criar algo de forma intencional e livre de pressão por resultado, estamos ativando uma dimensão de presença que raramente acessada no ritmo acelerado que vivemos.


 Atividades como a costura, cerâmica, pintura, bordado, colagem ou modelagem com argila têm o poder de reorganizar internamente aquilo que está disperso.



O simples ato de tocar um material e transformá-lo com as próprias mãos aciona recursos profundos do corpo e da mente.


É uma prática de atenção plena.


Por isso, é comum escutar: “Nossa, já terminou o tempo, nem vi passar”.


A prática com as mãos favorece uma criatividade que amplia perspectivas. Estimula novas compreensões, reorganiza emoções, e permite elaborar o que estava retido.


Benefícios das manualidades para a saúde mental e física


Estudos mostram que práticas manuais e expressivas estão associadas a benefícios significativos, como:


  • Redução de sintomas de ansiedade e depressão

  • Melhora da autoestima e da identidade

  • Estímulo à regulação emocional

  • Estimulação da coordenação motora fina

  • Ativação de áreas cerebrais ligadas ao prazer e à memória

  • Prevenção do declínio cognitivo


Esses dados reforçam o que, em sessão, vejo acontecer no corpo e na fala de quem se permite criar.


O que foi ao ar na entrevista


Na reportagem veiculada pela BandNews FM Salvador, foi ao ar o seguinte trecho da minha participação:


"A utilização dos materiais expressivos na arteterapia não tem como finalidade a produção artística e estética, não se busca finalizar um trabalho harmônico ou bonito para si ou para os outros.


Na verdade, esses trabalhos possibilitam abrir caminhos para o que precisa ser olhado pelo próprio indivíduo. Nesse contexto, a arte permite que a pessoa se veja, se escute, se identifique e, se ela desejar, se transforme, ressignifique o que sentir necessário."


Fico feliz em ver que, pouco a pouco, esse tema vem ganhando espaço em ambientes diversos. E que a saúde mental pode ser cuidada de formas múltiplas, inclusive com as mãos.


A arteterapia é uma proposta acessível, profunda e sensível. Possibilitando que, ao resgatar o gesto de criar com as mãos, estejamos também resgatando um caminho de volta para nós mesmas.


Se esse texto fez sentido para você, te convido a conhecer mais sobre meu trabalho e as possibilidades de cuidado que ele oferece.



Um convite ao sentir


Se você tem vivido no automático, ou sente que se afastou de si mesma, talvez essa seja a hora de se escutar de um jeito novo.

A arteterapia pode ser um caminho para isso: um espaço onde o sentir é bem-vindo e onde é possível, aos poucos, se reconectar com o que faz sentido para você.




 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page